Rafael Nogueira
A última década brasileira foi
uma coleção de sobressaltos. Colapso de prestígios, ascensão de novos líderes,
recuos humilhantes, judicialização da política, guerra digital e, agora, a
revolução tecnológica que promete redesenhar inteligência, trabalho e vida
social. Mas houve um fio condutor: a luta entre energia moral e sobrevivência
burocrática, entre imaginação política e administração do medo, entre um país
que queria reencontrar o seu caminho e um sistema que só tinha mapas para fora
dele.
O Brasil nasceu como
continuação de um projeto civilizacional português, reforçado pela
transferência da corte, pela centralização política e pela construção de uma
unidade que nos poupou do rio de sangue que precedeu a formação das nações
hispano-americanas. A Proclamação da República rompeu esse fio. Apagou
símbolos, desmontou mediações, substituiu maturação institucional por
oligarquia e fragmentação.
Daí veio a amnésia da Nova
República que prometeu liberdade e cidadania, e entregou ideologia, centrão e
teatro de democracia, para esquecermos do que vemos com os olhos e ouvimos com
os ouvidos a fim de entendermos o mundo pelo que certos iluminados nos
informam.
Em 2018, o que muitos tomaram
por acidente eleitoral foi a irrupção de uma nova linguagem e de uma nova
energia histórica. A internet abriu uma comunicação sem intermediários,
improvisada, tosca, mas viva. Era a ruptura digital.
Dela nasceu o "herói
moral", cuja força não vinha de partido nem de conchavo, mas da capacidade
de ouvir e encarnar multidões até então tratadas como massa inerme. O
bolsonarismo foi, naquele momento, menos máquina do que emoção, representando a
política que volta a ser drama, conflito, promessa de grandes dias.