Carina Bratt
Para minha mãe, Marcela Bratt
O RELÓGIO DO TEMPO anda sempre no mesmo
passo, mas há dias que ele parece correr, fugir, deixar para trás tudo o que
euzinha havia planejado. Havia o domingo, as danças que fazem bem à alma, o
caminhar na praia, as pizzas no lugar de sempre, as crônicas das minhas
‘Danações’ que prometia escrever e entregar ao meu amigo Jim. Mas a vida, às
vezes, prega peças, nos dá susto, nos aniquila, bate à porta com urgência, e o
que era rotina e calma se desfaz num instante. Num único instante. E, do nada,
tudo que se fazia felicidade, some, desaparece, vira fumaça.
Minha mãe Marcela, que carrega consigo o
peso do Alzheimer, precisou ser levada às pressas para internação. Corri com
ela e Aparecido. Nessa correria, o mundo, o meu mundo se reduziu ao seu
bem-estar, à sua mão tremida segurando a minha, aos seus olhos que, por vezes,
não reconheciam onde estavam nem por que estavam ali. Essa doença infame e
ingrata é assim: vai apagando devagar as lembranças, os nomes, os caminhos...
Ela não esquece só o que comeu há pouco,
o que bebeu, esquece quem é, onde esteve, o quanto foi amada. E quando outra
doença chega, quando o corpo enfraquece além da mente, tudo se torna duas vezes
mais difícil. Ela não consegue explicar o que sente, não entende os médicos, os
quartos, as agulhas. Só sente medo. Um medo tétrico que se achegou depois que
meu papai Francisco se foi. E eu precisei estar lá, me fazer inteira, afastar
os medos, as angustias, os receios e temores, para segurar esse medo grandioso
e pesado junto com ela.
Naquelas horas de aflição, olhei para o
relógio e pensei: Quanto tempo falta? Falta tempo para cuidar dela, cuidar com
toda calma que ela merece. Falta tempo para lembrá-la, suavemente, de quem ela
é. Falta tempo para as minhas crônicas de todos os domingos, que ficaram
esquecidas num canto, assim como o texto que deveria ter escrito e mandado com
antecedência.