Aparecido Raimundo de Souza
NA COZINHA bem cuidada da senhora
Fogosa Folgada, ela é a rainha. Não estou fazendo referência a senhorita Fogosa
Folgada, quero deixar isso bem claro. Me reporto a inoxidável Sirigaita
Redonda, a panela de pressão. E, como tal, ela reina soberana. Esse artefato
metálico do conforto industrial e da suprema engenharia “panelar” que a
sociedade moderna inventou dizem os entendidos em chaleiras, bules,
frigideiras, canecas e panelas, enfim, todas essas miscelâneas de bugigangas
foram criadas para acelerarem a vida moderna.
Na prática ela, em especial, a panela
de pressão funciona, verdade seja dita, como um teste psicológico gratuito. O
ritual tem início sempre ingressando, ou melhor dito, do começo. A senhora dona
Fogosa Folgada coloca o feijão, a água, o tempero e fecha a tampa com aquele
encaixe digno de uma bomba nuclear construído nos cafundós da Feira de Acari. A
partir daí a geringonça assume o comando. O chiado começa tímido, como quem
pede licença, mas logo vira um apito ensurdecedor, tipo aquele do fatídico Titanic
minutos antes de ir parar no fundo do mar exatos seiscentos e quarenta
quilômetros a leste da Ilha de Terra Nova, no Canadá.
E, de fato foi levando um bando de
criaturas berrando em seus ouvidos, inclusive o Leonardo Di Caprio e a
estonteante Kate Winslet (esses dois últimos a serem encontrados, em face de,
na hora de embarcarem, ambos misteriosamente terem trocado de nomes, ou seja, o
Leonardo ingressou como Jack e Kate, como Rose Bukater). Já não quero mencionar
o fato de vir à tona voltando, à panela de pressão, uma espécie de protesto
descomedido de eleitores insatisfeitos sem saber em quem votar nas próximas
eleições.
Em face disso, é curioso como ninguém
confia plenamente na dita. A dita, é bom explanar explicando, não outra, senão
a Sirigaita Redonda com fogo a todo vapor na bunda deixando o feijão em
tumultuado reboliço. Dona Fogosa Folgada reza pra tudo quanto é santo, antes de
retirar a tampa. Manda a filha dela, a Folgadinha (que grudada no celular não
enxerga um palmo adiante do nariz e, de roldão, entocar a sua mãe e seu pai no
quarto, por conta dos idosos, (ambos surdos dos olhos e cegos dos ouvidos)
ficarem bem longe das adjacências da cozinha.
Distanciados o mais que puder, tendo em
vista a bendita panela de pressão passar a quem dela se aproxima, notar uma
certa expressão de bomba destruidora, de quem vai provocar uma explosão pior
que a de Chernobil capaz de derrubar o prédio com seus vinte e dois andares. A
Panela de Pressão, dizem os entendidos é o único objeto doméstico que
transforma o simples ato de cozinhar em uma cena de suspense. Se o Chaves
estivesse vivo, por exemplo, faria o professor Girafales se esconder debaixo
das saias de dona Florinda e deixar o Kiko boquiaberto por não ter conseguido
terminar de bater uma punheta para o traseiro dos óculos da Chiquinha.