Rafael Nogueira
Se o Brasil tivesse uma mãe
simbólica (nação e pátria-mãe são termos que puxam o feminino), Portugal
personifica o pai: aquele que estabelece a ordem, impõe a justiça, institui a
lei, edifica a estrutura e traça o percurso. Enquanto a mãe oferece o substrato
afetivo, o útero da terra e os costumes nativos, o pai provê o eixo, a direção
e a construção. A perda desse eixo identitário pode levar um país a um
ressentimento histórico estéril e a uma adesão a modismos efêmeros.
O primeiro elo inegável é a
língua. O português, em sua riqueza, expande o horizonte da imaginação, ao
mesmo tempo em que oferece um instrumental lógico-prático robusto.
Simultaneamente, ele cria intimidade e demarca limites, permitindo a expressão
da ternura, da ironia, da solenidade, e até mesmo da frieza calculista quando
usado como arma.
Essa unidade linguística foi
crucial para forjar uma coesão mental em um território que, por sua vasta
geografia, naturalmente tenderia à fragmentação. O mapa brasileiro poderia ter
se desdobrado em um mosaico de províncias rivais, cada qual com seu dialeto,
sua vaidade local e seu líder carismático. Contudo, o idioma português teceu um
centro de gravidade que impediu a desintegração nacional.
A segunda camada desse elo
reside no temperamento civilizacional, perspicazmente observado por Gilberto
Freyre. Portugal não emergiu no Atlântico como um bloco monolítico, mas como um
povo forjado por misturas, contatos e acomodações sucessivas. Na análise
freyriana, a Península Ibérica é um palimpsesto cultural, profundamente
romanizada, com continuidade visigótica, permeada por influências africanas e
marcada pela convivência, por vezes tensa, mas sempre fértil, entre diversas
culturas.
A romanização legou-nos a
infraestrutura, as instituições, a técnica e a linguagem latinizada que ainda
moldam nosso pensamento. As sucessivas invasões não anularam esse legado, mas o
adaptaram. E a história do Brasil, se começa com o "achamento", tem
raízes fundas que remontam à dominação romana na Península Ibérica. Portugal
atuou como o agente singular que traduziu a ordem jurídica romana para o
contexto tropical. Sem essa base, o Brasil seria meramente um vasto espaço
habitado, desprovido de uma estrutura civilizatória profunda.