Aparecido Raimundo de Souza
COMO AQUELA MÚSICA da dupla VICKY SOUZA
& DENIS SOUZA, que tocou baixinho no rádio do meu carro, quando eu já
estava quase chegando em casa, e lá fora, a noite escura cobria a avenida
vazia, como um cobertor velho que ganhei de minha falecida mãe, foi o bastante
para me trazer à memória, mais uma vez, aquele café com leite que você faz do
meu jeito, todas as manhãs, antes de eu sair para o trabalho, como também o
sorriso inebriante e indescritível, que ainda agora, meu Deus, tantos anos
depois, ele continua sendo aquele
sorriso bonito e insubstituível que todas as noites, quando regresso para nossa
casa, parece ser (parece não é), a coisa mais aconchegante e indescritível,
apesar de tantos janeiros vividos de minha existência ao seu lado.
A música que toca agora e me faz
lembrar de nós, tem nas vozes suaves da Vicky & Denis, o tom tonitruante de
um amor imperecível, de um gostar que não se acaba, de uma paixão que resiste
ao vento, que se adapta ao tempo, que se amolda as dores, se agarra as
tristezas, se entristece aos dissabores e, sobretudo, sobrevive pujantemente
restabelecida às cicatrizes que a vida vai nos deixando lentamente no corpo e
na alma. Eu parei, de repente, no sinal vermelho. Estanquei com as mãos ainda
no volante, e imagine, que coisa louca. Não deixei em nenhum momento, de pensar
em você.
Pensei que a gente sempre imagina o
amor eterno como algo grandioso, como as histórias de filmes românticos que
duram séculos, que atravessam oceanos e guerras, ventanias e tufões, que tem
seus nomes escritos em prédios e casas, pedras e montanhas, porém, que ninguém,
nem coisa alguma consegue mover.
Mas o nosso não é assim. Como não?
Pense, meu amor: o nosso amor é eterno, não há dúvidas. Cabe nos dias pequenos,
nas horas mortas, nos minutos que se foram. Se amoldam nos detalhes que ninguém
mais percebe, a não ser nós dois. Ele incrivelmente cabe no jeito que você
ainda me deixa o café com leite com exatamente as duas colheres de açúcar, que
eu já tenha dito mil vezes que quero diminuir, mesmo que os anos passem e a
nossa rotina mude. Ele também se identifica na forma que você dorme com a mão
encaixada na minha, a outra em cima do meu coração, notadamente nas noites em
que a gente brigou por uma coisa boba, tipo a novela que eu acho chata, ou
pelos filmes dos tempos da ronca, que eu gosto de ver, sempre as surradas
bobeiras repetidas, mesmo que um de nós esteja com raiva o suficiente para não
falarmos por horas, as nossas mãos sempre encontram uma a outra, no escuro, e
nesse grude, se abraçam sem pedir licença.