Aparecido Raimundo de
Souza
NA PRAÇA, o relógio do
outro lado da rua marcava seis horas da tarde quando o primeiro latido ecoou.
Logo vieram outros, como se fossem uma espécie de chamado secreto. De repente,
a grama se transformou em frente à igreja matriz. A coisa toda virou palco de
uma verdadeira orgia canina: patas correndo em todas as direções, rabos
abanando como bandeiras de festa, bolas disputadas com a seriedade de uma final
de campeonato.
Os donos tentavam
manter a compostura, mas impossível não rir diante daquela explosão de alegria.
Cada cachorro parecia esquecer o mundo entregue ao prazer simples de existir. A
mim me pareceu um caos organizado, uma celebração sem pauta, uma sinfonia de
latidos e corridas. E quem passava pela praça, ou cruzava, fosse indo ou vindo,
mesmo sem cachorro, acabava parando para espiar. Porque naquela orgia de pelos
e patas, patas e pelos, havia uma lição silenciosa: às vezes, a felicidade está
em se permitir ao excesso.
Aquele excesso
bucólico de brincar, de correr e de viver. O sol de repente, inventou de se
despedir atrás dos prédios quando a cidadezinha começou a sua festa secreta. As
luzes acenderam em cascata, as vitrines se puseram a piscar, buzinas competindo
com risadas, vendedores gritando ofertas como se fossem pregões de carnaval.
Era uma outra orgia. Agora a orgia se fazia de sons e cores: o vermelho dos
semáforos misturado ao amarelo dos anúncios, o cheiro de pipocas sendo
estouradas brigando com o perfume caro que escapava das moças que iam e vinham.
Cada esquina parecia
querer ser mais intensa que a outra, como se houvesse uma disputa invisível
pelo título de “excesso perfeito”. E no meio desse caos, eu caminhava. Primeiro
irritado, depois abatido, e no final das contas, rendido. Havia algo de irresistível
naquela desordem: uma celebração da vida em sua forma mais crua, sem roteiro,
sem ensaio. A cidadezinha, naquela noite, não se fazia apenas cenário. Virara
protagonista de sua própria orgia de existências.
Quase oito da noite, e
a feira da praça fervilhava. Bancas coloridas disputavam atenção, cada uma
oferecendo sua própria tentação. O cheiro de pastel se misturava ao doce da
goiabada, ao caldo verde, as pizzas, enquanto o pregão do feirante competia com
o riso das crianças. De repente, percebi: não era apenas uma feira. Ao meu
redor se formara uma orgia dos sentidos. Uma explosão desordenada de cores,
sons e aromas, todos se atropelando, todos querendo ser protagonistas.