Miguel A. Baptista
Imaginem que um partido de
esquerda radical era impedido de participar presencialmente num debate
radiofónico. Não era excluído do debate, note-se: podia intervir, mas à
distância. A razão? Os seus representantes teriam, aparentemente, uma espécie
de lepra política que os impedia de partilhar o estúdio com os restantes
participantes.
Imaginem agora que a líder
desse partido não se conformava com a discriminação e, no dia do debate,
irrompia pelo estúdio, reclamando o direito de ocupar o lugar que lhe estava
destinado.
Os jornalistas depressa a
promoveriam a nova Pasionaria. Teria sido a mulher corajosa que não se
resignava perante a injustiça e ousava derrubar barreiras. A heroína que
combatia os fascismos e o patriarcado tóxico. Multiplicar-se-iam os memes com o
seu rosto, acompanhados de palavras de ordem em sua homenagem. Circulariam
abaixo-assinados de solidariedade. A direção da rádio seria pressionada a
demitir-se por ter permitido aquela ignomínia discriminatória.
Um cantautor comporia uma
balada em louvor da guerreira que não se vergava perante a opressão. Numa
manifestação de apoio à proscrita, as t-shirts com a sua fotografia conviveriam
harmoniosamente com os lenços e as bandeiras da Palestina.
Os partidos que aceitassem participar no debate sem a presença física da líder seriam denunciados como cúmplices da opressão. Um jornal mais à direita que descrevesse a sua justa reivindicação como uma «invasão» seria imediatamente catalogado de nazi. E quem ousasse lembrar que a intrépida guerreira poderia vir a sofrer consequências pela sua atitude seria também acusado de fascismo.
























