Aparecido Raimundo de Souza
HOJE, por volta das cinco da manhã,
acordei e vesti a camisa do lado avesso. Não percebi na hora, só quando fui
tomar meu café, capturei o reflexo do armário de vidro que me fez a gentileza
de me mostrar a etiqueta dura grudada no pescoço, a costura fina correndo ao
longo do peito como uma ferida que não sangra mais. Fiquei olhando para mim
mesmo um minuto, e então pensei: não é a primeira coisa, hoje, que está do lado
errado. A vida tem dessas tiradas. A gente passa décadas andando pelo lado
direito de tudo: a roupa bem passada, os filhos na escola, o trabalho na hora
certa, a esposa arrumando a gravata antes de eu sair, o mundo alinhado como as
toalhas no armário dela, junto com as calcinhas de um lado e as minhas cuecas
do outro. Tudo tem uma face para fora, uma face limpa, sem nó, sem costura
aparecendo. É a face que os outros veem, a que a gente mesmo aprende a
considerar como a verdadeira.
E então, um dia, sem aviso, sem ninguém
virar a chave, a gente acorda no avesso. Os pequenos avessos chegam primeiro. A
meia que se calça com a costura para fora e só percebe depois de caminhar três
quarteirões para pegar o ônibus superlotado. A fronha que ficou com o feio
virado para cima, e não se teve mais força para trocar. O lençol que se amassou
todo por baixo, na noite de insônia, e quando a gente acorda parece que, ao ter
tirado uma trepada com a mulher, deixou, ou ficou a impressão de que ela dormiu
dentro de um nó. Antes, ela percebia tudo isso. Um olhar só, e já esticava a
gola da minha camisa, acertava o meu pinto murcho dentro da cueca, virava a
meia paro o lado direito, arrumava a cama desfazendo os desacertos da foda
enquanto eu tomava o primeiro gole de café e comia um pedaço e bolo de
chocolate. Hoje, os avessos pequenos ficam lá, permanecem quietos, como se a
casa também tivesse desistido de fingir que tudo está perfeito.
Depois chegam os avessos grandes, os
que doem de verdade. Os nossos filhos, que um dia corriam atrás pelo jardim
gritando “papai, espera”, agora somos nós que ficamos esperando o telefone
deles tocar, uma vez por semana, para dizer que estão bem. Os netos, que subiam
no meu cangote como se eu fosse uma árvore segura, agora passam ao abraço
rápido e já voltam para o celular, como se o meu colo tivesse ficado pequeno
demais para o universo deles. O trabalho, que por bons punhados de anos foi o
centro do meu dia, a razão de acordar cedo, de suar, de lutar, de me sentir
útil, hoje é só um diploma na parede da sala, ao lado de um relógio cuco que
parou, uma história que a gente conta e os mais novos ouvem com educação, sem
entender realmente o tamanho daquela vitória. Até o tempo virou do avesso. Até
bem pouco tempo, os dias se faziam longos, demoravam a acabar.