Aparecido Raimundo de Souza
HÁ QUEM ACREDITE piamente que o primeiro passo dado define toda a
caminhada. Mas a vida, com a sua ironia silenciosa, insiste em provar o
contrário. Frei Beto leciona que “O ponto de partida é apenas um instante
congelado no tempo, tipo uma fotografia inicial que não contém o filme
inteiro”. O destino, por sua vez, agora visto pela ótica de Carolina Vigna, “é
uma obra em constante reescritação feita de desvios, encontros inesperados e
escolhas que por sua vez se multiplicam como bifurcações invisíveis.
“Uma jovem que começa num bairro esquecido pode se tornar inventora de
futuros. Uma mulher que inicia a sua jornada em meio ao silêncio pode
descobrir, num piscar de olhos a sua voz no palco do mundo. O início não é
sentença, é apenas uma peça do cenário”. Tudo isso e muito mais pode ser lido
no livro de Maria Isabel Szpacenkopf em seu “O olhar do poder”. O que realmente
molda o caminho, nas palavras, agora na visão de Raul Parelo em “A vida
suspeita do subversivo”, é “a coragem de continuar, mesmo quando o horizonte
parece distante demais”.
Parinoush Saniee em seu romance “O livro do destino” deixa claro e
cristalino que o ponto de chegada “não é uma linha reta, mas um mosaico de
acasos e decisões”. O ponto de partida, pode ser humilde, doloroso ou até mesmo
bastante caótico — mas não é uma prisão. Cada curva, cada queda, cada
levantada, cada recomeço acrescenta uma nova camada à narrativa. E, no fim, o
que importa “não é de onde se veio, mas o que se construiu ao longo da
travessia”.
Assim, a crônica da nossa vida ensina: nenhum ponto de partida indica o
destino. O que o determina alimentando é a persistência em caminhar, a ousadia
constante em mudar de rota e a fé persistente em que o amanhã pode ser
diferente do ontem. E o ontem, do hoje. O ponto de onde se inicia a viagem, é
apenas uma circunstância inicial, um instante que nos situa no tempo e no
espaço, mas não nos aprisiona de nenhuma forma.
A filosofia ensina que o ser humano é um esboço em aberto: não nasce
pronto, se constrói aos poucos. Martin Heidegger em “Ser o tempo” fala do “ser-aí” lançado no
mundo, mas com a liberdade de se projetar além das condições dadas”. Sartre,
por sua vez, lembra que “a existência precede a essência” — ou seja, não somos
definidos pelo lugar de onde viemos, mas pelas escolhas que fazemos.