Paulo Hasse Paixão
Num ataque de incomensurável pretensão, Christopher Nolan assumiu a costela woke e admitiu ter alterado o final da sua adaptação de ‘A Odisseia’ porque acreditava que a conclusão original de Homero para a história era demasiada “misógina”.
Ou seja, Nolan sabe melhor do
que Homero como terminar uma epopeia. Uau!
Em entrevista à revista Time,
Nolan discutiu as diferenças entre o filme e o material
original e aprofundou a sua interpretação da obra. Às páginas tantas, o
entrevistador comentou:
“Também se vê esta ideia do
homem como besta na cena com Circe. Ela diz que os homens de Ulisses a teriam
violado e matado — que são uns porcos. Depois chega-se ao fim e vê-se o saque
de Tróia e o horror do que fizeram. Ela tem razão.”
Nem ela tem razão nem a “ideia
do homem como besta” é um eixo significativo na obra clássica. Mas não
satisfeito com este desvio transformista, Nolan respondeu de seguida:
“Circe expressa isso muito
bem no filme. Adorei a forma como Samantha [Morton] interpretou o papel.
Falando sobre as escolhas de adaptação, o final do poema é tão sombrio e
misógino que tive de excluir parte desse material. Mas não queria descartá-lo
completamente em termos do que ele diz sobre os homens e a forma como travam
guerras.”
É espantoso o critério do cineasta, que escolhe livremente e sem pudor as partes que mais agradam à ideologia neoliberal contemporânea, e exclui, num atentado terrorista contra o legado da literatura homérica, os elementos que não compaginam com o “bem pensar” das elites de Hollywood.


























