Aparecido Raimundo de Souza
PARTIMOS COM TUDO, além de uma boa pitada de satisfação e esperança, o
coração batendo descompassado, em vista dos sonhos e principalmente
esperançados na nossa fé, e, dentro dela, a certeza de que nada nos separaria.
Era o começo. O tempo todo, o mundo colado aos nossos pés, parecia feito só
para nós dois. O mar calmo de Copacabana, não batia, se emoldurava suave se
entrelaçando na areia, enquanto o sol descia devagar, se fartava a passos
miúdos tingindo tudo de ouro, e cada olhar se engrandecia numa promessa como se
dissesse, ou melhor sussurrasse: “estou aqui, para sempre”.
Aconteceu ali, entre o céu e o mar, naqueles dias que deveriam ser só luz
e alegria. Veio devagar, sem aviso, uma palavra dita sem pensar, um silêncio
que cresceu entre nós, um mal-entendido que virou o muro e foi cair em cheio na
avenida movimentada que passava em frente ao nosso hotel. De repente, o que se
fazia meigamente doce, ficou amargo. O que era confiança, virou dúvida.
Descobrimos que carregar a própria história também significava englobar
defeitos, medos, feridas, tristezas e incertezas que ainda não cicatrizaram e
que às vezes, sem querer, acabamos machucando justamente a quem mais amamos.
Ficamos de frente um para o outro, tão perto e ao mesmo tempo tão
distantes. Do nada, a nossa lua de mel virou uma tremenda lua de merda, como se
fosse o primeiro teste: não a lua de mel de paixão, mas de paciência, de
perdão, de aprender que amar não é só ter alegrias, mas saber edificar quando
algo se quebra ou se deteriora. Choramos, nos calamos, depois falamos tudo,
vomitamos o que doía, o que esperávamos, o que tínhamos medo de perder. E ali,
naquele lugar que deveria ser somente um todo perfeito, aprendemos a verdadeira
noção de realidade: o amor não nasce pronto. Ele se constrói também nas horas
difíceis, principalmente nos minutos estropiados e macambúzios em que tudo
parece conspirar contra.
Hoje lembro o que aconteceu nos nossos primeiros dias não manchou o nosso
começo, pelo contrário, o tornou mais verdadeiro. Porque foi lá, naquele
momento entre risos e lágrimas, lagrimas e risos, que percebemos: não importava
o que viesse, se estivéssemos dispostos a entender, a ceder, a recomeçar… a
perdoar, sobretudo a perdoar, então sim, conseguiríamos seguir caminhando
juntos. O “para sempre” não é coisa de um dia só. E nunca será. O “para sempre” é renovado automaticamente
todos os dias, começando por deixar claro aquele incidente em que descobrimos
como agir para que o nosso enlace matrimonial não terminasse mal.