Aparecido Raimundo de Souza
CONHECI A SAMÁRIA que me foi
apresentada por indicação de um amigo, no exato instante em que procurava
alguém para me auxiliar no dia a dia, uma vez que a minha secretaria Carina,
precisava se afastar para cuidar da mãe adoentada. Seria apenas uma conversa
inicial, pensei com meus botões. Mas bastou ouvi-la dizer "bom dia"
para que algo em mim se transformasse. Sua voz se fazia maviosa, pausada, tipo
assim, como quem cuidava das próprias palavras antes de soltá-las ao sabor do
vento. Não havia pressa nelas, nem durezas. Cada frase vinha envolta numa
ternura que não fingia simplesmente existir. E quando horas depois vi o seu
rosto, (pelas câmeras projetadas através de nossos celulares), senti um
encantamento que não esperava.
Vislumbrei, de cara, uma clareza no
olhar. De roldão, uma serenidade que parecia acalmar o ambiente à sua volta,
como se ela inteira trouxesse consigo um pedacinho de paz que eu nem sabia que
me faltava. Aos bocados poucos, fui-me envolvendo sem querer, sem planejar. A
cada conversa, um desejo novo nascia, insistia quieto e tímido, qual seja, o de
estar perto, o de ouvir mais uma vez aquela sua voz adocicada, o de saber
também como foi o seu dia. Mas então, quando tentei seguir em frente, dizer o
que sentia, veio o silêncio pesado, de profundidade densa, e com ele, o peso
dos setenta e três anos que carrego. Ela é jovem, bonita, vistosa, tem na
presença que inebria, a vida toda ainda se abrindo diante de seu futuro.
E eu? Meu Pai! Eu trago uma longa
estrada percorrida, e com ela, rugas que contam histórias, rusgas que trazem à
tona os cabelos que o tempo destituiu da cor original. Então vieram as
indagações me açoitarem: Como me atrever a dizer o que sinto? Seria justo? Que
direito tenho, ou teria de sonhar acordado, de “quimerar” com alguém que está
no início e eu já tão perto do “quase-fim?”. A diferença de idade entre ela e
eu, ergue um muro que parece intransponível. Com isso, por vezes, o coração
bate mais forte e a boca entreaberta quase solta a verdade. Mas então, nessa
hora, me lembro dos meus anos. Sopeso a juventude que contemplo nela, e
embasbacado engulo as palavras. Prefiro guardar esse sentimento como um tesouro
só meu, uma quimera adocicada que me permita ao menos admirá-la de longe, sem,
todavia, incomodar, sem exigir nada.