Aparecido Raimundo de
Souza
A MÉRCIA, FILHA única
do bicheiro Pescoço de Girafa, tinha uma espécie de flerte por debaixo dos
panos com Papacum, o rebento mais novo do quitandeiro Orlando. O negócio deles,
não muito às claras, se embolava por detrás das cortinas, às escuras dos olhos
paternos. Embora fossem solteiros e descompromissados, havia um engasga gato
que atravancava o namorico dos dois. Exatamente o que atrapalhava? A idade?
Negativo! Ambos andavam na casa dos 17 anos, com a diferença de que a Mércia
era mais velha que Papacum um mês e meio.
Até aí, tudo bem. O
fato é que o pai da moça, o temido Pescoço de Girafa (esse apelido se dava pelo
fato do cidadão ter um pescoço comprido, como o desses animais e viver, o tempo
todo, espiando as coisas por cima) o que propiciava o comando do jogo de bicho
da área, além do tráfico de drogas. Respeitado e temido pela maioria, ninguém
nas redondezas se metia a besta com ele. Fizesse frente, aparecia, dia
seguinte, com a boca cheia de formigas numa vala aberta, uma espécie de lixão
nos arredores do bairro.
Não bastasse isso, o
sujeito não queria a sua filha metida com o garoto. Ele era pobre, não
trabalhava, vivia às custas do quitandeiro, ao contrario de sua filha, que
tinha de tudo do bom e do melhor, inclusive um carro zero bala, uma moto,
apartamento próprio, além de uma rechonchuda conta bancaria. Mas naquele dia,
justo naquele santo dia, o Pescoço, sem querer, flagrou os dois num dos quartos
de hospedes da mansão. O casalzinho estava numa boa, aos beijos e abraços.
Pelados, completamente
sem roupas, como vieram ao mundo. O rapaz, por cima, falava palavras melosas,
enquanto a Mércia gemia baixinho como uma gata no cio. A danadinha mexia e
remexia o corpo, como se tivesse sendo açoitada por um prazer imensamente fora
do comum. Pareciam, na verdade, entrelaçados por fios invisíveis que se
embolavam por dentro um do outro, como um novelo de linha nas patas de uma
cadela estabanada. E realmente estavam numa boa. A farra comia solta.