Aparecido Raimundo de Souza
A MINHA PRINCESA foi embora. Partiu sem
aviso prévio, sem um “até breve”, ou um “até a volta”. Foi, a espevitada, sem
um “adeus” formal, levando consigo no brilho dos olhos meigos, o som cálido das
risadas que enchiam toda a minha esperança e, de lambuja, carregou o meu “eu”
interior, outorgando ao ar a presença maciça de um vazio pesado e
insubstituível em lugar dos abraços especiosos que pareciam não ter fim.
Quando fechei a porta da sala e olhei
ao redor do silêncio, tudo parecia ter ficado no lugar: a coleção de vestidos,
as saias e calças, as bonequinhas Barbie, os sapatos arrumados no canto, os
livros na estante, a toalha de banho pendurada no gancho do banheiro. Mas nada
tinha o mesmo sentido, a mesma graça. Tudo parecia sem miolo, como se o íntimo
de toda a casa, do nada, num sopro, tivesse parado de existir.
Depois de dias revirando memórias e
tentando encontrar um vestígio que ainda fosse dela, algo sólido que eu pudesse
tocar e sentir que ela não tinha partido por completo, percebi, meu Pai Eterno,
ou melhor, me dei conta de tudo o que ficou dela, só restou, palpável, o
quadrinho.
Aquele quadrinho pequeno, que eu mesmo
pendurei com cuidado, que sedimentei num prego pequeno, mas bem firme, no lugar
em que, a meu ver, seria o mais claro de toda a sala.
E esse lugar, sem dúvida alguma, em
cima da minha escrivaninha de trabalho. Na “foto-moldura”, se vê uma casinha
frenteada a um lago de águas claras, e, ao redor, muitas árvores frondosas.
Poderia jurar, obviamente, em louca imaginação, ela sorrindo faceira, os
cabelos esvoaçando ao sabor do vento, o seu vestidinho jeans desbotado e no
rostinho ah, no rostinho, aquele ar de quem tem o mundo inteiro preso entre os
dedos das mãos.