Aparecido Raimundo de Souza
“Eu sou um poste de luz. Ilumino tudo, até a incoerência dos insociáveis”.
Tompson de Panasco, morador de rua, atualmente na Estação Sé do Metrô, São Paulo.
CHEGA, BASTA! Estou no limite. Cansei de ficar aqui parado, ao lado desta
praça em frente à matriz da paróquia de Santo Antão, ereto feito um varapau,
com os braços cheios de fios e, ainda por cima, segurando uma lâmpada irritante
(que fica o tempo todo piscando intermitentemente) sem mencionar um baita
transformador chato prá burro, pesado com força, e mais degradante, o troço
perto do meu coração. Não pensem, que por eu ser um simples poste de luz de
praça, não tenha coração. Embora seja um ser inanimado, feito de cimento armado
e areia, (esclarecendo que não ando armado, nem uso revolver nem tenho porte) é
preciso que todos saibam que dou vida às coisas.
Levo alegria às famílias e aos lares. Não fosse por mim, a luz elétrica
jamais chegaria até a sua casa ou nas dependências da igreja do padre
Chinfrânio Quermesse. Quando uma pessoa aperta o interruptor, ou liga a tv, o
rádio o aparelho de som, e o chuveiro quente, lá estou eu, levando o conforto,
a comodidade e o bem-estar. O meu braço que sustenta a luminária me disse,
outro dia, que está de saco cheio de todo santo dia olhar para baixo e ver
sempre as mesmas coisas. Concordo com ela, em gênero, número e grau.
Entretanto, devo deixar esclarecido, que essa luminária, não tem
sentimento. Por clarear tudo, se acha melhor que todo mundo.
E o que dizer do meu caso? Os passantes me enfeitam com papeis coloridos.
Virei, grosso modo, peça de circo. Faço anúncios de graça de vendas de produtos
os mais diversificados, de animais de estimação desaparecidos, de cartomantes
que operam milagres, de putas à caça de uma trepada inesquecível, e pasmem, não
ganho um centavo nem para um café ali na padaria ao lado do prédio da Caixa
Econômica. Mais humilhante é aguentar os pombos, os passarinhos, que chegam nos
meus cornos e, de roldão, os cachorros e as cadelas que se abancam nos meus pés
com a maior naturalidade, levantam as patas e mijam sem o menor
constrangimento.
Quando não fazem coisa pior, tipo soltar o barro, dar aquela cagada
descontrolada. Aí, é dose para elefante. Estou pensando, seriamente,
(aproveitando as épocas eleitoreiras dos futuros ladrões em busca do poder) em
conversar com o atual prefeito e fundar o Sindicato dos Postes Solitários,
atrelado ao Serviço de Proteção aos Postes Desamparados. Dia desses, uma BMW
veio pra cima da calçada, a toda velocidade, com um cara doido, ao volante.
Filho do veado do juiz. Acho que o sujeito estava pra lá de Marrakech e, não
contente em me atropelar repetiu a dose com uma velhinha que seguia em direção
ao supermercado. Foi um estrondo que fez juntar metade da cidade.