Aparecido Raimundo de
Souza
HAVIA, OU MELHOR,
houve um tempo em que as máscaras do carnaval eram promessas de brilho, de fuga
e de reinvenção. Cada rosto escondido atrás de um véu colorido carregava a
esperança de ser outro mais leve, mais livre, mais feliz. Mas nem todo carnaval
cumpre a sua promessa. Quem leu “O País do Carnaval”, do baiano Jorge Amado...
talvez volte no tempo e se ache no texto que abaixo escrevo.
Nos “carnavais
fracassados”, segundo Paulo Roberto Barros Braga, “as máscaras não escondem,
apenas denunciam. O sorriso pintado escorre com a chuva, o brilho se apaga
antes da meia-noite, e a fantasia pesa como fardo”. O batuque da bateria soa
distante, como se o coração da festa tivesse perdido o compasso.
No dizer de Joaozinho
Trinta, “São carnavais em que a multidão dança sem acreditar na própria
coreografia, em que os confetes se confundem com poeira, e os foliões se tornam
espectadores de uma alegria que não chega”. As máscaras, outrora cúmplices da
ilusão, se tornaram espelhos daquilo que não se quis ver: a solidão no meio da
multidão, o vazio pesado por trás da euforia.
No entanto, apesar
disso, há uma beleza melancólica nesses carnavais falhados. O saudoso Luiz
Fernando Veríssimo em um brilhante texto publicado no Jornal Zero Hora, assim
se expressou: “Porque mesmo quando a festa não acontece, a máscara insiste em
existir. Em ser. Ela guarda a memória de um desejo, de uma tentativa, de uma
coragem de se reinventar ainda que por instantes. E cá entre nós, consegue”.
Pois bem! Talvez seja
isso que nos move: a certeza de que, mesmo nos “carnavais fracassados”, há
sempre uma máscara esperando para ser usada de novo, como quem acredita que a
próxima dança, o próximo canto, o próximo riso, finalmente vingará.
Nos jornais do Rio de
Janeiro e São Paulo, se costuma falar dos “carnavais como símbolos de alegria
coletiva, da explosão cultural que atravessa ruas e avenidas. Mas há também os
“carnavais que não vingaram”. Aqueles
que por falta de público, de recursos ou de espírito, se tornaram apenas
promessas não cumpridas”.
As máscaras desses
“carnavais fracassados” não esconderam as euforias, mas revelaram os
desencantos e as tristezas. Eram rostos pintados que caminharam em desfiles
esvaziados, fantasias que brilharam sob luzes apagadas, sambas que ecoaram em
arquibancadas quase silenciosas. O que deveria ser catarse virou registro
melancólico: a festa do povo que não aconteceu.