Aparecido Raimundo de Souza
CORRIA UMA MANHÃ encantadora no
município de Nossa Senhora dos Enforcados, ou mais precisamente no bairro da
Cascata Encantada. Era um dia esplendoroso, desses em que o vento vem lá das
bandas do morro da Menina da Cabeça Pelada, encimado por um céu que parecia ter
sido mesclado de azul com um pincel de pelos macios. No campinho de futebol,
onde a grama verdinha tentava fugir do calor, o pequeno João Eduardo, um menino
de oito anos armou a sua Pipa. Um dia antes, ele pediu para a sua vó Lucia
comprar papel crepom amarelo como o sol das cinco da tarde se despedindo para
ir embora.
João Eduardo no fabrico da sua Pipa,
usou as varetas de bambu fininhas, cortadas do sitio do Tio Dininho, fez um
rabo de meia dúzia de fitas coloridas que batiam em seu rosto como pequenas
bandeiras. Pronta a sua mais nova diversão, o pequeno correu para o campinho
onde jogava bola. Segurava a linha com as duas mãos, e aos poucos, com jeito,
deixou que a Pipa saísse do chão e subisse. Radioso o seu “papagaio” (1) voou
acima dos telhados vermelhos do humilde bairro e seguiu altaneiro. De repente, lá no mais distante que os olhos
quase não podiam enxergar, árvores frondosas balançavam com o vento de
concepção enfraquecida. Mais aquém até que as aves que passavam rápidas como se
tivessem pressa de chegar em lugar nenhum, a Pipa finalmente alcançou o espaço.
Ela amava aquilo. O espaço. O pequeno
João Eduardo idem. Aliás, ele sentia o ar passando por debaixo do seu
“brinquedo voador” (2), e isso o fazia leve, quase sem peso, tal como a linha
branca que o ligava do carretel à Pipa, como se fosse apenas um carinho, e não
uma prisão. A Pipa por seu turno, livre, leve e solta, queria chegar cada vez
mais perto do sol. De repente, nessa “esvoação” avistou, um pouco afastada de
todas as outras, uma nuvem muito pequena do tamanho de um travesseiro de neném,
Era essa nuvem, toda branquinha e fofa. Num dado momento, a Pipa percebeu que a
nuvenzinha chorava. Se debulhava, a coitadinha, num derramar de lágrimas
baixinho e profundamente sentido.
Todavia, sem fazer barulho. Deixava
cair dos seus cantos, quase imperceptíveis, um líquido miúdo, na verdade,
lágrimas fininhas como fios de cabelos, que desciam devagar e desapareciam no
ar antes de tocar o chão da estrada que levava para as bandas das ruinas da
Igreja de São José do Pescoço Comprido. As outras nuvens, as grandes e
folgadas, aquelas metidas a bestas, passavam por ela e nem a olhavam. Algumas
iam correndo para o norte, outras paravam para jogar beijos para o sol.
Nenhuma, verdade seja dita, se detinha para perguntar por qual motivo a pequena
se debulhava em pranto lastimoso e plangente.