Maria Helena Costa
Quando Luiz Inácio Lula da Silva afirma que o ensino doméstico é “a supremacia da ignorância tentando vencer o pensamento da maioria”, não está apenas a criticar um modelo pedagógico. Está a declarar, com clareza, qual é a sua concepção de educação: a escola controlada ou regulada pelo Estado deve ser o espaço obrigatório de formação das crianças, e qualquer tentativa de os pais assumirem integralmente essa responsabilidade é vista como a arrogância de uma minoria.
A frase é reveladora. Não se discute a
qualidade do ensino em casa, os resultados académicos ou a capacidade dos pais.
Discute-se o direito de se subtrair ao “pensamento da maioria”. Noutras
palavras: a educação não pertence prioritariamente à família, mas à coletividade
organizada pelo Estado.
Essa lógica não é nova. Em 1920,
Alexandra Kollontai escreveu em O Comunismo e a Família que a
sociedade comunista deveria assumir progressivamente as funções de criar e
educar as crianças. “A pátria comunista alimentará, criará e educará o filho”,
afirmou. A criança sairia “do marco estreito da família” e o peso da educação
passaria para a coletividade. Os pais poderiam colaborar, mas a
responsabilidade principal seria social e estatal. O objetivo era formar a nova
geração nos valores do regime, libertando a mulher do trabalho doméstico
individual e dissolvendo a família tradicional como unidade autónoma de
transmissão de valores.
Lula não citou Kollontai. Não precisa. A estrutura do argumento é a mesma: a formação da criança não pode ficar sob o domínio exclusivo dos pais quando isso diverge do projeto coletivo. O “pensamento da maioria” ocupa, no discurso contemporâneo, o lugar que a “pátria comunista” ocupava no texto de 1920. Em ambos os casos, a autonomia familiar é tratada com suspeita.

























