Aparecido Raimundo de
Souza
HOJE, SEXTA-FEIRA,
acordei feliz. Não foi por causa de uma grande conquista, nem por uma notícia
extraordinária. Foi simplesmente porque o sol mavioso atravessou a fresta da
cortina e pousou no meu rosto como quem diz: “levanta, seu corno, o dia já
começou”. O café feito pela Silvinha, minha secretária do lar, parecia mais
cheiroso, os pães que ela trouxe da padaria mais saborosos, e até o barulho da
galera andando no calçadão da praia ganhou um ritmo de música. A felicidade,
percebi, não estava em algo que eu esperava, mas no que já se fazia ali, ou
seja, no instante presente, no simples ato de existir.
Quando a felicidade
chega, é outra coisa. Tomo meu banho, engulo o café e enquanto caminho em
direção ao trabalho, noto que as pessoas parecem mais leves. Talvez não fossem,
oxalá apenas uma leve impressão minha, ou apenas o reflexo do meu olhar. Porque
quando se acorda feliz, o mundo inteiro parece conspirar a favor. O ônibus
atrasado vira oportunidade de contemplar o céu, o vizinho rabugento soa como
personagem de comédia, e até o trabalho ganha contornos de aventura. Hoje,
sexta-feira, a coisa se repetiu. Acordei feliz de novo. Darei início, daqui a
pouco, à operação “Café queimado”, em homenagem a minha amiga Ana Paula, esposa
do meu caríssimo amigo Reginaldo e isso me fez pensar...
Pensar em quê? Ah,
lembrei! Quantas vezes deixamos a felicidade para depois, como se fosse prêmio
de uma corrida interminável? Mas ela é teimosa, insiste em se esconder nos
detalhes, nos abraços rápido, nas gargalhadas inesperadas, no silêncio que
conforta. Até no sujeitinho chato que vou levar daqui a pouco para Brasília em
direção à Cornuda, perdão, Papuda. De onde foi que eu tirei essa tal de
Cornuda? É a idade. É a idade. Talvez amanhã eu acorde preocupado, ou cansado,
ou simplesmente indiferente. Mas hoje não. Hoje, sexta-feira, acordei feliz, e
decidi que carregarei essa alegria até a noite, como quem segura uma chama
pequena, mas suficiente para iluminar o caminho.